domingo, 21 de março de 2010

Em busca de gênios gringos, cidadezinha faz rir


Uma comédia escrita por Joaquim Manoel de Macedo (A Torre em Concurso) no século 19 caiu nas mãos do grupo Teatro Meio, que soube bem atualizá-la. O resultado é a divertida O Gênio em Concurso.

O ambiente é a pequena Cabelinhas, cidade que, para aparecer no mapa, quer oferecer ao planeta um gênio da informática. Os habitantes desta ficção (só eles?) acham que os estrangeiros são melhores em tudo. Então, nada de brasileiro! Iniciada a disputa entre os candidatos a peritos, vêm os cacoetes de uma campanha política, incluindo o horário eleitoral na televisão.

Esta comédia une em várias canções as letras de uma com a melodia de outra. O melhor exemplo: a lenta Devolva-me, de Lilian Knapp (aquele sucesso voz-e-violão de Adriana Calcanhoto: “Rasgue as minhas cartas e...) ganhou os versos de Cerol na Mão, do agitado Bonde do Tigrão. Este achado musical tem potencial para um espetáculo à parte e uma contraindicação: por vezes, esfria a história (o que me fez, ao final, aplaudir com moderação).

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O Gênio em Concurso, montagem do grupo Teatro Meio-SP. Teatro da Caixa (Conselheiro Laurindo). Dia 21 (18h). R$ 20 e R$ 10.

sábado, 20 de março de 2010

Perfídia, a radionovela surrealista

Sob o gentil patrocínio da companhia Fé Cênica, sobe ao palco a comédia Perfídia Quase Perfeita, uma celebração da radionovela dos anos 50. Atenção, caros ouvintes! Não se trata apenas de uma volta ao passado. Perfídia é uma comédia surrealista!

Aonde quer que cheguem as ondas da PRC-6, um casal não discute a relação (isto só entraria em vigor nos anos 60), mas sobre qual deles dois morreu: ele ou ela? No intervalo desta mórbida trama, o mesmo e hilário dueto de atores (Geraldo Machado e Claudiane Carvalho) diverte ao anunciar os patrocinadores, intercalados com a animação do locutor-padrão da rádio (Claudio Marinho).

Os ouvintes mais escolados no cancioneiro romântico brasileiro percebem, nas falas dos canastrões, trechos de clássicos, como Negue, de Adelino Moreira, e Meu Mundo Caiu, de Maysa. Bem bolado! Porém, aqui reside um perigo: quem desconhece estas canções não acha graça. Costurar as antigas citações com algumas mais recentes, tipo Roupa Nova ou Zezé di Camargo e Luciano, é uma sugestão, meu caro Carlos Correia (autor da peça).

Mas... ora, ora, ora! Não é porque fiz um reparo, que vou o cortar divertimento dos ouvintes. O melhor ainda está por vir! Telefone no ar e... quem está na linha? A mãe de um dos personagens, indignada com o rumo da história. É ou não é surreal, ouvintes?

Perfídia Quase Perfeita, da companhia Fé Cênica-SP, foi apresentada no Teatro Lala Schneider, entre os dias 18 e 20 de abril.

O Esquema diverte, mas eu quero mais Alcione

Ayrton Baptista Junior

Especial para o Bem Paraná

Chama-se O Esquema, mas sugiro que o ator e autor Diego Fortes mude o nome desta comédia, a nova da companhia Armadilha, para Alcione ou O Carro Não Compensa (já explico o porquê). Título à parte, quem cair nesta armadilha tem boas chances de rir.

Dois sujeitos que ganham a vida fantasiados de bichos em eventos, um assaltante, uma senhora desiludida (destaque para a atriz Jussara e uma radialista de conselhos sentimentais são os personagens. No início, eles são dispostos como em esquetes, parecendo não pertencer à mesma trama.

Na lógica de O Esquema, o carro é a dor de cabeça de quem não pode pagá-lo e também o que levará mais cedo ao serviço quem adoraria chegar mais tarde. Enfim, uma desgraça motorizada.

E a Alcione com isso? É ao repertório da cantora que dois personagens, não na mesma cena, recorrem. E esta libertária de emoções, a Alcione, poderia ser ainda mais explorada, pois é um ótimo contraponto ao ambiente de balada tecno que permeia sonora (DJ Selector Z, ao vivo) e visualmente a peça.

O Esquema diverte. Só o que complica (um pouco) são as pausas do diálogo central, o dos fantasiados, para a fala da radialista. Ainda que esta personagem intervenha decisivamente, mais adiante, a alternância quebra o bom ritmo. Nada, porém, que o samba da Alcione não possa consertar.

O Esquema, montagem da companhia Armadilha, de Curitiba. Teatro Universitário de Curitiba (galeria Julio Moreira, s/nº). Dias 21 (14h), 22 (17h) e 23 (14h). Ingressos a R$ 12.

Cinema, a peça, é o delírio dos cinéfilos

Ayrton Baptista Junior,
especial para o Bem Paraná

Felipe Hirsch é mentiroso. No palco do Guairinha, o diretor avisa que Cinema, a nova investida da Companhia Sutil, está quase no ponto, mas que veremos ainda um ensaio aberto. Balela. Para delírio dos cinéfilos, Cinema, a peça, está pronta!

O público ocupa cadeiras no palco do teatro. À sua frente, o elenco incorpora cinéfilos espalhados num cinema de poltronas vermelhas (iguais à do extinto Ritz, da XV). O filme (que não vemos) já começou e a iluminação reproduz o efeito de claridade provocada pela tela. A peça (que vemos) já começou.

O que Cinema exibe é a vingança dos cinéfilos. Não entendeu? É que seres desta espécie, como eu, são frequentemente acusados de verem a vida dos outros, a dos personagens, de não viverem. Meu irmão! A gente vive um bocado!

O som denuncia vários gêneros (trechos de comédia romântica, musical, aventura, drama, Nouvelle Vague, A Doce Vida, São Paulo S/A) e, sem que a projeção pare, os jovens atores da Sutil compõem esquetes num ritmo de baile que lembra o próprio: O Baile, filme de Ettore Scola (no salão deste, sem diálogos, passam 50 anos da história da França).

Nesta sessão corrida há a espectadora com as falas decoradas do melodrama, os estudantes que dormem na mostra alemã, o encontro de um casal que discorre longamente sobre os contra-planos do novo cinema oriental, a que incorpora uma Judy Garland e dança sobre as cadeiras, os que são tomados pelo rock, romances feitos e desfeitos, e um sem-fim de amassos, um deles com a participação da mulher de duas cabeças.

À certa altura, a sessão é interrompida por um diretor que fala, em russo, sobre a sua arte. Felizmente, o sujeito vai embora ao perceber que não agrada. Ele desconfia que o melhor cinema não é o que se explica, mas o que é visto e vivido. Dentro do cinema.

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Cinema, montagem da Companhia Sutil, dirigida por Felipe Hirsch, foi apresentada ainda em caráter de “ensaio aberto” nos dias 18 e 19, no Guairinha, como parte do Festival de Teatro de Curitiba. Não há previsão de estreia em Curitiba.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Galpão é o mesmo! A Ópera também...




Ayrton Baptista Junior,
especial para o Bem Paraná

O grupo Galpão não muda: continua espetacular! O problema é que a acústica Ópera de Arama também é a de sempre: sofrível! O que fazer? Ir ao Parque Barigui, onde Till, a Saga de um Herói Torto será apresentada neste sábado (20), às 17h, e domingo (21h), às 15h, com outra vantagem em relação a Ópera: de graça!

Till é o cara cobiçado pelo Demônio depois que Deus lhe tirou a consciência. A cada deslize, a consciência, que anda solta por aí, é a culpada.

Apesar do som ruim, a plateia ruiu muito. A vantagem deste texto, de Luís Alberto Abreu, é que aquele diálogo perdido por causa da acústica é compensado com outra graça logo a seguir. Só mesmo o encanto desta trupe cantante mambembe de adoráveis maltrapilhos para superar o incômodo da Ópera.

Till, a Saga de um Herói Torto, montagem do grupo Galpão-MG. Ópera de Arame, dia 19 (21h). R$ 45 e R$ 22,50. Parque Barigui, dias 20 (17h) e 21 (15h). Grátis.

Voluntários do HC

O guia do Festival de Curitiba não informa que a peça Amor e Loucura é uma criação de funcionários do Hospital de Clínicas. Eles compõem o grupo Anticorpus e promovem uma reunião de sentimentos: o Amor, a Inveja, a Euforia, a Loucura. A Curiosidade é: quem substitui o Bom Senso, que ameaça se aposentar?

Não quero ser a Verdade: o público do festival, sem saber que a peça é assumidamente amadora, não terá a mesma tolerância. Também não quero ser o Estraga-Prazeres: creio que a iniciativa, se levada para crianças em hospitais, vai funcionar.

Amor e Loucura, do grupo Anticorpus, de Curitiba. Casa Hoffman (Largo da Ordem). Dias 19 (15h) e 20h (18h), Ingressos a R$ 20.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Platéia única

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Público pagante de duas peças de ontem no Fringe.
Ator que é ator encena até para as paredes.

Os de Depoimento , de Londrina, no Solar do Barão, toparam. Quem pagou foi uma estudante de jornalismo. Obrigado.
A outra foi Os Antônio, de Ribeirão Preto-SP. Na saída da Casa Vermelha, o “público” elogiou os atores Paulo Oliveira e Ricardo Casella.

Risos com Raul Franco e “Carla Carolina”

Breno Guimarães faz tipos: o lutador de toscas palavras e a cantora Carla Carolina, que ameaça duetos com falecidos famosos da música brasileira. Raul Franco faz humor com cara limpa, debochando daquelas letras que cantamos errado (tipo “alagados, frankstein” do Paralamas do Sucesso). Ambos são muito bons. A fama não vai demorar e Vale Tudo para Rir cumpre o que promete (mas o vídeo que acompanha a peça, com as trapalhadas do lutador, é dispensável).

Verifique se na plateia está a atriz e cantora Debora Walz, de TPM para Mulheres. Com a risada dela, a peça fica mais engraçada.

Ô, Breno! Tô achando que a Carla Carolina rende mais que o lutador. Explore mais esta filha de nossa senhora do acarajé avatapado.

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Vale Tudo para Rir (Um Nocaute no seu Humor). Montagem carioca. Teatro Cultura (praça Garibaldi, 39). Telefone: 3224 7581.

Sujos: miséria sem coitadismo e com sapateado

São dois maltrapilhos (os atores Léo Kufner e Rafael Koehler) que vivem entre caixotes. Dirá você: mais miséria? Cheio de “sifudê” e com muito baba, a do ator (Léo) cara-a-cara com o público sentado no palco do Teatro Londrina.

Miséria, nada óbvia: Sujos, a peça em questão, não convida ao coitadismo. Até provoca: leve o mendigo pra casa e veja o que vai acontecer. Menos óbvio: na fantasia de musical de Hollywood (é os maltrapilhos sonham!), os atores mandam bem no sapateado.

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Sujos, montagem do grupo K, de Blumenau. Texto: Gregory Haertel. Direção: Pépe Sedrez. Sala Londrina (Memorial de Curitiba), dias 17 (18h), 18 (21h), 19 (12h) e 20 (15h). Ingressos a R$ 20 e R$ 10.

Agulhas de Depoimento cutucam atores, público e sistema de saúde

Ayrton Baptista Junior,
Especial para o Bem Paraná

Para saber o que é a dor é preciso senti-la. Você já ouviu isto em algum lugar. Na peça Depoimento, que aborda o caos da saúde pública, aborto e tabus da sexualidade, a dor não é discurso. Ela é sentida literalmente pelo trio de atores do grupo Protótipo Utópico, de Londrina.

Inicia a história uma vítima de fratura no pé (Monica Bernardes), que espera três horas na fila de um hospital. A seguir, o andrógino (Normando Amazonas) aborta.

Acompanha a ação uma mesa com medicamentos, uma chapa para fritar bife e uma bacia. Parece dramático. E é, mas também é questionador da reação da própria platéia, pois nos é permitido conversar, andar, falar com os atores e até ao celular e rir da desgraça alheia.

Eu ri sem esconder enquanto Monica Bernardes quase vomitava ao comer bife de fígado, o que ela confessou odiar. E conversei tranquilamente com o ator-diretor Aguinaldo de Souza vendo o público o alfinetar com agulhas e ele tirar sangue da própria veia antes de rastejar até a calçada. Não é que eu seja sádico. É que Depoimento vai além do sofrimento ou do caos do sistema de saúde. É uma ótima quebra de barreira ator-personagem. Crítica ou exibicionismo? Some os dois e tenha uma contundente provocação.

Faltou mais daqueles incômodos cheiros de medicamento e alguns penicos para o espectador vomitar. São os únicos senões desta performance (e eu não sou de embarcar em qualquer performance). É que neste Depoimento quanto maior o mau gosto melhor o gosto.

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Depoimento, montagem escrita e encenada pelo grupo Protótipo Utópico, de Londrina. Solar do Barão (Carlos Cavalcanti, 533), dias 17 (16h), 18 (19h), 19h (22h) e 20 (13h). Ingressos a R$ 20 e R$ 10. Telefone: (41) 3321 3367.